O único sítio verdadeiramente insuportável é aquele onde fomos felizes.
Cesare Pavese
É irónico que Deus, só após quatro mandamentos, se tenha lembrado de proibir o Homem de matar o seu semelhante.
Há dias Sir Bob Geldof foi (mais uma vez) homenageado, desta feita em Portugal, pelo seu empenho filantrópico em salvar África. Como? Pressionando os grandes líderes mundiais a aumentar as ajudas ao continente e a perdoar a monstruosa dívida externa que atrasa a recuperação das economias locais. Proposta louvável, mas profundamente ingénua, não fosse o facto de nos referirmos a alguns dos mais corruptos e opressivos regimes do mundo. Grande parte dos fundos não chega às populações, as ajudas humanitárias são retidas e desbaratadas na maior parte das vezes antes de surtirem algum efeito, e quanto ao perdão da dívida externa, apenas dará largas a novo endividamento. O propósito? Invariavelmente o mesmo: armas, corrupção, e o enriquecimento das elites africanas que pouco ou nada se interessam pela sorte das populações.
Quem me espera não me espera
Entrevista a alguns jovens "crucificados pelo sistema" na Radio France Internationale. Indignados, não com a recente onda de vandalismo em França, mas com o abandono a que foram votados pela sociedade e pelo Estado (esse Grande Responsável). Razões para tamanha indignação? Nada fazem, nada podem fazer, nada podem esperar. Porque, cito, "passamos o dia encostados às paredes", porque "o Estado não cria salas de jogos, salas de convívios para podermos discutir e debater", porque, no fundo, "não estamos na escola". Mais não ouvi pois tentei controlar a direcção do automóvel depois de um ataque de riso mal contido.