Tuesday, November 29, 2005

O único sítio verdadeiramente insuportável é aquele onde fomos felizes.
Cesare Pavese

Friday, November 25, 2005

Já agora...

É irónico que Deus, só após quatro mandamentos, se tenha lembrado de proibir o Homem de matar o seu semelhante.

Dívidas

Há dias Sir Bob Geldof foi (mais uma vez) homenageado, desta feita em Portugal, pelo seu empenho filantrópico em salvar África. Como? Pressionando os grandes líderes mundiais a aumentar as ajudas ao continente e a perdoar a monstruosa dívida externa que atrasa a recuperação das economias locais. Proposta louvável, mas profundamente ingénua, não fosse o facto de nos referirmos a alguns dos mais corruptos e opressivos regimes do mundo. Grande parte dos fundos não chega às populações, as ajudas humanitárias são retidas e desbaratadas na maior parte das vezes antes de surtirem algum efeito, e quanto ao perdão da dívida externa, apenas dará largas a novo endividamento. O propósito? Invariavelmente o mesmo: armas, corrupção, e o enriquecimento das elites africanas que pouco ou nada se interessam pela sorte das populações.

Monday, November 14, 2005


Sony Center, Berlin

"Anything that can be done to a rat can be done to a human being. We can do just about anything you can imagine to rats. And closing your eyes and refusing to think about this won't make it go away.
That is cyberpunk."
Bruce Sterling

de Tamara de Lempicka (1898 - 1980)

Vodka e Valium 10

Quem me espera não me espera
quem me ama já esqueceu
quem me toca dilacera
esta estranha primavera
que o mês de Maio me deu

Eu já nem sei que tenho
se febre se mal ruim
se este sentimento estranho
de não ser de aonde venho
comigo longe de mim

E assim fico sentada
como as algas a boiar
de queixo na mão pousado
o meu barquinho parado
sem porto para ancorar.

António Lobo Antunes (cantado por Kátia Guerreiro)
Explica-se assim onde fui buscar o nome deste blog :)

Thursday, November 10, 2005

Tumultos

Entrevista a alguns jovens "crucificados pelo sistema" na Radio France Internationale. Indignados, não com a recente onda de vandalismo em França, mas com o abandono a que foram votados pela sociedade e pelo Estado (esse Grande Responsável). Razões para tamanha indignação? Nada fazem, nada podem fazer, nada podem esperar. Porque, cito, "passamos o dia encostados às paredes", porque "o Estado não cria salas de jogos, salas de convívios para podermos discutir e debater", porque, no fundo, "não estamos na escola". Mais não ouvi pois tentei controlar a direcção do automóvel depois de um ataque de riso mal contido.
O abandono dos guetos pelo Estado e o total desinteresse pela sorte das suas populações criou zonas de marginalidade que cercam as grandes cidades. Facto. Mas não se pode desculpar tudo à luz de circunstâncias atenuantes como sejam uma infância ingrata ou a ausência de perspectivas de futuro. Deve haver uma certa tutela estatal que permita às pessoas esperar um futuro condigno; mas que não se caia na visão leviatãnica de Estado para a qual de Tocqueville alertou (um que nos acompanhe - e se responsabilize pelo indivíduo - do seu nascimento até à sua morte). Assim se percebe o ridículo quando são os próprios jovens que abandonam o ensino escolar a vir depois criticar a atitude tomada.
No fundo, uma emoção reina nestas zonas: o ódio (la haine). Fomentado pela ausência de esperança? Talvez. Mas não é situação que se assemelhe ao desespero de palestinianos. Há uma carência de violência nas sociedades ocidentais, e também há as ocasionais válvulas de escape. Quando não é através do futebol (e das suas claques), exprime-se no cocktail molotov atirado contra um Mercedes.